Posso rezar em uma pessoa possuída?

A pergunta não é simples de responder, mas é uma das dúvidas mais procuradas no Portal: posso rezar em alguém possuído?

Procuramos nossos especialistas para orientar-nos como católicos a respeito da questão.

Nosso colunista, Padre Bruno Sedenho, sacerdote da Diocese de São Carlos – SP, respondeu nossa pergunta explicando:

“Não. Ordinariamente, não pode! Não se deve rezar na pessoa possuída, dando ordens diretas ao demônio. Depende muito da pessoa que vai rezar, se ela tem uma caminhada de Igreja e é acompanhada por um sacerdote, havendo uma emergência, é outra história. Suponhamos que numa conversa, ou alguma oração por uma pessoa, alguém passe mal, ou tenha alguma manifestação, não sabendo que essa pessoa é possessa, excepcionalmente, neste caso pode-se fazer uma oração pela pessoa, desde que de modo deprecativo. Nunca imperativo! As orações em tom deprecativo devem pedir o auxílio do céu, rezar o Santo Rosário, invocações a São Miguel Arcanjo. Nunca ordens diretas ao demônio. Exigir ou dar ordens para sair, que ele fale ou revele alguma coisa. No trabalho que desenvolvo como Exorcista, dentro do meu ministério, é assim que eu oriento. Eu tenho uma equipe que eu formei e eu acompanho. Dentro de uma situação em que estou dirigindo orações, havendo algum tipo de manifestação, os membros da minha equipe podem retirar essa pessoa do meio da assembléia, para não haver tumulto e fazer orações sob ela enquanto eu não posso atender. Mas são orações de intercessão: Ave-Maria, São Miguel Arcanjo e orações pedindo a Jesus e Maria por aquela pessoa. Nunca dando ordens diretas ao demônio. É assim que eu oriento a minha equipe. De uma maneira geral, você pode rezar por uma pessoa possuída, mas não na pessoa pessoa possuída.”

Consultamos, também, nosso colunista Padre Geovane Ferreira, Exorcista Oficial da Arquidiocese do Rio de Janeiro e membro do Conselho da AIE que nos respondeu:

“Para que eu possa dizer que uma pessoa está possuída ela precisa passar por um diagnóstico. Se a pessoa passou pelo diagnóstico com o Exorcista e ele definiu que ela é possuída, logo ela não precisará passar por orações com outras pessoas porque ela já estará sendo atendida por ele. Ela não deve receber outras orações. Diante disso, respondendo a pergunta, não posso rezar em uma pessoa possuída porque ela, já tendo o diagnóstico de um Exorcista, estará sendo atendida por ele. Depois que ela terminar de ser atendida pelo Exorcista, ele pode encaminhar ela para uma cura interior ou até outro tipo de oração ou acompanhamento, mas se a possessão já é de fato reconhecida pelo Exorcista é ele quem vai rezar por ela Exorcismos até que seja completamente liberada.”

Sobre a possessão demoníaca, a Associação Internacional dos Exorcistas – AIE, orienta que cabe ao sacerdote exorcista atestar se, de fato, uma pessoa está ou não possuída.

Havendo mesmo a possessão, não é prudente que uma pessoa sem preparo e devidamente autorizada pela Igreja reze por essa pessoa. O risco é muito grande. Mesmo os Exorcistas tem limites. Eles não são super heróis, pois agem em nome de Cristo.

Uma reclamação frequente dos Exorcistas que acompanham o Portal é que as muitas pessoas chegam até eles com o diagnóstico pronto, afirmando que estão possuídas ou que a pessoa que acompanharam até o Exorcista está possuída. Isto se dá por vários problemas, dentre eles a falta de orientação adequada.

Certa vez, uma pessoa entrou em contato com o Portal dizendo que seu filho estava possuído, pois blasfemava muito, xingava e a agredia. Foi necessário mais de uma hora de conversa para chegarmos a conclusão de que seu filho não tinha sinais de possessão e sim, apenas precisava de uma boa correção. O Portal não faz encaminhamento de casos e nem tem acesso privilegiado a agenda dos Exorcistas que acompanha. Nosso trabalho é de formação e orientação. Para se chegar até eles, em geral, a orientação é a mesma: primeiro procure seu pároco, conte-lhe o caso e, se for necessário, ele encaminhará você via carta para o Exorcista da Diocese. Há excessões, mas o padrão é este.

Para decretar o estado de possessão, os Sacerdotes Exorcistas examinam uma série de questões: exames médicos, laudos psiquiátricos, vida de fé, sinais extraordinários, vida de oração, sacramental, etc. Além disso, podem proceder com um Exorcismo diagnóstico para saber se há alguma presença demoníaca na pessoa. Mas até chegar ao Exorcismo, “muita água vai rolar”.

Então, sabendo que a pessoa está possuída posso rezar nela?

Agora passamos ao aspecto prático: acompanhando a pessoa, sei que ela já foi examinada por um Exorcista e já passou, inclusive, por sessões de Exorcismo. Eu posso rezar nela?

Já vimos a resposta de dois especialistas no assunto. Não. Mas acreditamos que talvez precisemos readequar o sentido das palavras na pergunta: nela não, mas por ela, sim. A pessoa que sofre o estado de possessão entra em transe com frequência. E neste estado, não é ela quem fala, mas o demônio. E nós, como católicos, não podemos dialogar com o demônio. Você entrará numa verdadeira batalha espiritual. Irá se expor ao perigo, pois os Exorcistas rezam sob a proteção da Igreja e com a autoridade que Cristo deu a ela.

A pessoa que padece de uma autêntica possessão raramente encontra a libertação rapidamente. São necessários meses ou até anos para que chegue até a libertação definitiva, muitas sessões de Exorcismo e uma vida que, muitas vezes, pouco a pouco, vai encontrando o caminho da fé. As vezes a pessoa vai conseguindo rezar, ir a missa com muita dificuldade e até se confessar com muito esforço. Mas não é fácil. Logo, se você for rezar por ela, a chance de acontecer alguma manifestação extraordinária é muito grande. E se você estiver em uma situação em que a pessoa entrou em transe, rezando por essa pessoa, a melhor coisa a se fazer é manter a calma e continuar rezando pedindo a Deus para que essa pessoa volte a si. Nunca provocar o maligno, pois nós leigos não somos Exorcistas. Mesmo os padres que sabem que a pessoa está passando por um processo de libertação, devem ser muito prudentes na hora de rezar com essa pessoa. A menos que possuam a licença de Exorcista concedida pelo Bispo Diocesano, também não devem envolver-se com orações que falem diretamente ao maligno ou lhe deem ordens.

Alguns leigos no Brasil possuem carta de seus bispos para rezar orações de libertação. Isto não é uma autorização para rezarem Exorcismos ou darem ordens aos demônios em orações públicas ou privadas. Mas vemos que é comum em certos encontros de oração isso acontecer. É importante matermos a serenidade e fazermos a nossa parte: obedecermos a Igreja!

Que Deus nos abençoe sempre!

 

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