O Exorcismo é um Ministério da Igreja, não um espetáculo humano

A nota da Associação Internacional dos Exorcistas, datada de 6 de janeiro de 2025, Epifania do Senhor, nasce do espírito evangélico do Bom Samaritano, que, movido por compaixão — “Misericordia motus est” (Lc 10,33) — se faz próximo do que sofre. À luz do Catecismo da Igreja Católica (n. 2447), a Igreja ensina que consolar, aconselhar e confortar são obras de misericórdia espirituais. O ministério do exorcismo se insere neste contexto: não é iniciativa privada do sacerdote, mas missão eclesial conferida pelo Ordinário, conforme o Direito Canônico (cân. 1172, §1). O exorcista é ministro de Cristo, o único que possui autoridade própria sobre todos os demônios, e age em nome e por conta da Igreja. Quando um sacerdote ou leigo tenta conduzir libertações espirituais fora deste vínculo de obediência, ou desencoraja fiéis a buscarem o exorcista oficial da sua diocese, cria-se confusão espiritual, alimenta-se a superstição e fere-se a dignidade do fiel, templo do Espírito Santo. Em tempos de modernidade líquida, onde o sobrenatural se torna curiosidade doentia e espetáculo midiático, a Igreja reafirma: o exorcismo é um ministério de misericórdia, consolação e esperança, jamais um palco para protagonismos humanos.

Entre as práticas incorretas, a AIE reprova a improvisação e o sensacionalismo. É grave quando casos de possível ação extraordinária do Maligno são direcionados a “exorcistas mais poderosos”, médiuns ou supostos carismáticos sem mandato episcopal, ou quando critérios esotéricos e nova era, como “abrir chakras” ou “eliminar negatividade”, são validados como autêntico discernimento. Tais expressões não pertencem à teologia nem à liturgia e derivam de crenças contrárias à fé católica. A centralidade do ministério não está no diabo, mas no Evangelho que liberta o homem da escravidão do pecado. A paz que o fiel busca não vem de compulsão por orações repetitivas, mas da caridade nutrida pela Palavra, pela oração e pelos sacramentos da Confissão e da Eucaristia. Quando o discernimento rigoroso da Praenotanda1 do Rito dos Exorcismos (DESQ nn. 14-17) é omitido, o fiel é exposto a riscos desnecessários e perde-se o caminho seguro da fé. O exorcista deve ser o primeiro habitado pela paz de Cristo, banindo o medo e educando o fiel à confiança em Deus, pois na Escritura o convite a “não temer” ressoa 365 vezes. A fé não se fortalece no pavor, mas no abandono nas mãos misericordiosas do Pai.

O documento também recorda que malefícios existem, mas nem todo sofrimento provém deles. Quando uma maldição é identificada de forma precipitada, sem discernimento sério, além de inútil, pode gerar ódio contra supostos autores e aprofundar feridas espirituais. O foco da libertação está nos remédios da graça, jamais na promoção do ressentimento. O fiel deve ser formado na certeza de que Deus não o abandona na provação, sofre com ele e o sustenta com Sua graça. Todo sofrimento, se aceito com amor e oferecido a Deus, transforma o mal em bem e produz “glória eterna” (2Cor 4,17; Cl 1,24). Da mesma forma, a AIE rejeita a cura intergeracional como condição indispensável para libertação. A prática, embora bem-intencionada, carece de fundamento bíblico e pode gerar danos existenciais ao fiel, sendo condenada por diversos Ordinários e conferências episcopais, especialmente na recente nota doutrinal da Conferência Episcopal Espanhola (2024). O ministério do exorcismo exige acompanhamento, tempo, prudência, consulta às ciências médicas quando necessário e humildade radical: “Ele deve crescer, eu diminuir” (Jo 3,30). O exorcista é voz que aponta para Cristo, jamais para si.

Entre os santos que servem de modelo ao ofício do exorcista, a nota recorda São Vicente Pallotti, a quem se atribui uma doutrina pouco conhecida: toda ação feita no Verbo Encarnado adquire dignidade incompreensível na Igreja, pois o próprio Redentor foi o primeiro Exorcista. Pallotti, ao exorcizar um sacerdote atormentado por 13 anos, escreveu oração que manifesta humildade e confiança trinitária: “Não eu, mas Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo ordenam a ti, ó diabo”. Este exemplo recorda que a ação extraordinária do Maligno nem sempre decorre de culpa pessoal, mas pode ser permitida pela Providência para um bem maior. Os santos, portanto, não só libertam em nome de Cristo, mas consolam, sustentam e conduzem o fiel à hospedaria da Igreja. Assim, o exorcismo é ministério da Cruz, do amor preferencial ao que sofre e do testemunho da presença salvífica de Cristo ao mundo. Uma obra que pretende servir este ministério, como o Portal Cura e Libertação, só é autêntica quando caminha em obediência à Igreja, com formação séria e sem protagonismos indevidos.

Por fim, o documento é um chamado à responsabilidade pastoral e à formação. Em tempos de cinema de qualidade duvidosa e curiosidade doentia pelo sobrenatural, é urgente formar clérigos, consagrados e leigos para não caírem em “mãos de bandidos” espirituais. O medo enfraquece a fé e escraviza o homem (Hb 2,14-15), enquanto a Igreja deve ensinar a “arte do acompanhamento”, tirando as sandálias diante do sofrimento sagrado do outro (EG n. 1692). O exorcista deve ser imitador de Cristo (1Cor 11,1), servo da paz, da esperança e da caridade. Obras como o Portal Cura e Libertação se tornam necessárias e confiáveis quando ajudam a Igreja a formar auxiliares e ministros com prudência, discernimento, sacramentos e obediência. Apoiar esta obra é afirmar: o combate espiritual é real, mas a libertação é de Cristo, pela Igreja, nunca de iniciativas humanas arbitrárias. Que o Bom Samaritano continue a derramar azeite e vinho sobre os que sofrem, por meio de ministros formados na fé segura da Igreja.

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  1. Notas introdutórias do Ritual Romano de Exorcismos da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. ↩︎
  2. Evangelii Gaudium n. 169 ↩︎

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