O Arrependimento como Fundamento Absoluto da Cura Interior

A experiência pastoral demonstra que muitos buscam a cura interior sem jamais tocar no ponto onde a verdadeira restauração começa: o arrependimento. Na tradição bíblica e na doutrina da Igreja, a cura não é um evento isolado, mas consequência de uma reconciliação profunda com Deus. Desde o início da pregação de Jesus — “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15) — a conversão aparece como condição primeira para que o Reino se manifeste na vida concreta da pessoa. Não se trata de moralismo, mas de ordem espiritual: enquanto o pecado é mantido, racionalizado ou relativizado, a graça encontra resistência objetiva. O arrependimento verdadeiro não é emoção passageira, mas metanoia, mudança real de mentalidade, de direção e de postura diante de Deus e da própria história.

Nos ensinamentos do Padre Rufus Pereira, o arrependimento é apresentado como um ato libertador, porque rompe pactos interiores com o pecado, com a culpa e com a autojustificação. Muitas feridas interiores não permanecem abertas apenas por traumas externos, mas porque foram irrigadas ao longo do tempo por decisões erradas, pecados reiterados ou resistências conscientes à verdade. A Escritura é clara ao afirmar que o pecado não confessado adoece o interior do homem: “Enquanto calei, meus ossos definhavam” (Sl 32,3). O silêncio sobre o pecado não gera paz; gera endurecimento espiritual. A cura começa quando a verdade é dita diante de Deus, sem máscaras, sem desculpas e sem negociações interiores.

Nesse contexto, o sacramento da Reconciliação assume um papel central no processo de cura interior. Ele não é apenas um rito disciplinar, mas um verdadeiro espaço terapêutico da alma, onde a graça age de forma objetiva, independente das emoções do penitente. Ao absolver, Cristo não apenas perdoa o pecado, mas desarma as estruturas espirituais que sustentavam a culpa, a vergonha e o autoabandono. Para ministros e agentes de cura, ignorar essa etapa é um erro pastoral grave, pois cria expectativas de cura sem conversão, algo que não encontra sustentação nem na Escritura nem na Tradição viva da Igreja.

Testemunho: quando a falta de arrependimento bloqueia a libertação

Durante um encontro mensal de oração por libertação, conduzido pelo exorcista de uma diocese de São Paulo, no qual era concedida a bênção com a oração do exorcismo de Leão XIII, ocorreu uma manifestação grave no meio da assembleia. No momento em que o sacerdote abordava o tema do pecado e da conversão, uma mulher começou a manifestar-se de forma violenta, interrompendo a oração comunitária. Diante da gravidade da situação, a equipe de apoio conduziu-a para um local reservado, a fim de que pudesse receber atendimento individual e discreto.

Já no início do acompanhamento, tornou-se evidente que não se tratava de um simples distúrbio emocional. Havia sinais claros de uma manifestação espiritual intensa, com comportamentos e reações que indicavam uma possível possessão diabólica. Como é próprio do discernimento pastoral sério, tornou-se necessário buscar a causa que sustentava aquela situação, pois a experiência no ministério de libertação ensina que raramente tais manifestações ocorrem sem um vínculo objetivo com o pecado grave, a falta de perdão ou práticas contrárias à fé cristã.

Quando a mulher saiu do primeiro transe — marcado por expressões de ódio e ameaças — foi-lhe feita uma pergunta direta e essencial:

— Você tem dificuldade para perdoar alguém?

Após um breve silêncio, ela respondeu com frieza e clareza:

— Eu não perdoo meu marido. Ele me traiu. Fui a um determinado lugar e encomendei um trabalho para matá-lo.

Essa resposta revelou, de forma inequívoca, a raiz espiritual da situação. Não apenas havia uma ferida profunda marcada pela ausência de perdão, mas também uma decisão consciente de recorrer a práticas gravemente contrárias à fé, envolvendo ódio deliberado e desejo de morte. É importante esclarecer que este relato não tem qualquer intenção de promover hostilidade religiosa ou fomentar julgamentos, mas apresenta fielmente os fatos presenciados durante a oração. No contexto da formação católica, é necessário alertar com caridade e verdade sobre os perigos espirituais de recorrer a práticas ocultistas ou a ambientes onde se invocam forças que não procedem de Deus.

Ao longo do atendimento, ficou evidente que aquela mulher não estava disposta a dar o passo essencial do perdão. Apesar das exortações, explicações e convites à conversão, seu coração permanecia fechado. Como ensina o próprio Evangelho — “Se perdoardes aos homens as suas faltas, vosso Pai celeste também vos perdoará; mas, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai perdoará as vossas faltas” (Mt 6,14-15) — e como repetia com firmeza o Padre Gabriele Amorth, o perdão não é um detalhe opcional, mas a chave que abre o caminho para todo verdadeiro processo de cura e libertação. Onde o perdão é recusado, a graça encontra um bloqueio real, pois o próprio Cristo afirma que a falta de perdão impede a ação reconciliadora de Deus na vida da pessoa.

Diante dessa resistência, foi necessário dizer com clareza e caridade que não seria possível prosseguir com a oração de libertação enquanto não houvesse, ao menos, uma abertura sincera para perdoar. A libertação não pode ser imposta, nem realizada contra a vontade da pessoa. Sem essa disposição interior, ela deixou o local ainda sob forte influência espiritual, retornando para casa no mesmo estado em que se encontrava.

Esse caso recorda uma verdade central da vida cristã: não existe libertação sem arrependimento, nem cura sem uma decisão concreta por Cristo. A graça é sempre oferecida, mas exige resposta livre. Enquanto o coração permanece preso ao pecado, ao ódio ou à vingança, a libertação permanece bloqueada. A escolha por Cristo passa, inevitavelmente, pela renúncia ao pecado e pela abertura humilde à conversão.

[...]a coisa mais importante que Jesus veio nos dizer é que Ele quer que nós sejamos perfeitos e Santos, mas ele está sempre pronto a nos perdoar. Se nós nos enveredamos por caminhos errados, Deus está com sede de nos perdoar, até mais do que nós estamos prontos para pedir perdão. Então, é através do nosso arrependimento que nós nos abrimos ao perdão de Deus.

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