“Não há diabo no Gênesis?” Exorcistas respondem à teóloga publicada pelo L’Osservatore Romano

Em julho de 2026, um artigo publicado no suplemento Donne Chiesa Mondo, vinculado ao jornal L’Osservatore Romano, provocou intenso debate entre biblistas, teólogos e exorcistas católicos. A autora do texto, a teóloga italiana Marinella Perroni, afirmou que, no relato da queda narrado em Gênesis 3, “não há diabo e nenhum poder divino ao qual os seres humanos estariam sujeitos”. A interpretação, apresentada a partir do método histórico-crítico, sustenta que a identificação da serpente com Satanás teria surgido apenas posteriormente na tradição judaica e cristã.

Embora seja verdade que o nome “Satanás” não apareça literalmente em Gênesis 3, a interpretação católica nunca se limitou à leitura isolada de um único texto bíblico. Desde os primeiros séculos, a Igreja interpreta a Sagrada Escritura à luz de toda a Revelação, da Tradição Apostólica e do Magistério. Por essa razão, o Catecismo da Igreja Católica ensina claramente que, por trás da desobediência dos nossos primeiros pais, encontra-se “uma voz sedutora, oposta a Deus”, identificada pela Escritura e pela Tradição como Satanás, o anjo decaído (CIC 391).

Foi justamente diante da repercussão dessas declarações que a Associação Internacional dos Exorcistas (AIE) publicou uma resposta oficial intitulada “Vamos esclarecer alguns pontos sobre o Gênesis (e o diabo)”. Em vez de responder apenas com argumentos opinativos, a associação preferiu recordar a doutrina constante da Igreja por meio de uma catequese de Dom Raffaello Martinelli, bispo emérito de Frascati e colaborador do então Cardeal Joseph Ratzinger na elaboração do Catecismo da Igreja Católica.

Segundo a AIE, o problema central não está apenas em discutir se a palavra “Satanás” aparece ou não em Gênesis, mas na maneira como se interpreta a Escritura. A associação recorda que o método histórico-crítico é um importante instrumento de estudo, porém não pode tornar-se o único critério de interpretação, deixando de lado a Tradição viva da Igreja e a unidade de toda a Revelação. A Constituição Dogmática Dei Verbum ensina precisamente que a Bíblia deve ser interpretada levando em consideração toda a Escritura, a Tradição e a analogia da fé.

Os exorcistas também recordam que diversos textos do Novo Testamento identificam explicitamente a antiga serpente com o diabo. O livro do Apocalipse afirma que “o grande dragão, a antiga serpente, chamado Diabo ou Satanás” foi precipitado (Ap 12,9; 20,2). Da mesma forma, Jesus declara que o diabo é “homicida desde o princípio” (Jo 8,44), enquanto São João escreve que “o diabo peca desde o princípio” (1Jo 3,8). Essas passagens mostram como a própria Escritura interpreta retrospectivamente o episódio do Éden, identificando a serpente como instrumento da ação demoníaca.

Outro aspecto ressaltado pela resposta da AIE é que negar essa interpretação tradicional acaba produzindo consequências muito mais profundas do que uma simples discussão exegética. Se a serpente do Éden não representa a ação pessoal do maligno, tornam-se difíceis de compreender a doutrina do pecado original, a necessidade da Redenção realizada por Cristo e até mesmo o sentido da missão libertadora de Jesus narrada nos Evangelhos, onde os exorcismos ocupam lugar importante em seu ministério público.

Essa preocupação torna-se ainda mais evidente quando se considera a prática litúrgica da própria Igreja. O Ritual dos Exorcismos faz diversas referências à “antiga serpente”, identificando-a explicitamente com Satanás. Durante o rito, a Igreja ordena ao demônio que abandone a pessoa em nome de Cristo, recordando que o Senhor esmagou a cabeça da antiga serpente por sua morte e ressurreição. Como observam alguns estudiosos citados na resposta da AIE, se a serpente fosse apenas uma figura literária sem relação com o maligno, seria necessário perguntar: afinal, contra quem a Igreja realiza o exorcismo?

É importante recordar também que o suplemento Donne Chiesa Mondo não possui autoridade magisterial. Embora seja publicado juntamente com L’Osservatore Romano, seus artigos expressam a responsabilidade de seus autores e não constituem ensinamento oficial da Igreja. Por isso mesmo, a resposta da Associação Internacional dos Exorcistas procurou reafirmar aquilo que permanece constante na fé católica: a existência pessoal de Satanás, a realidade do pecado original e a vitória definitiva de Cristo sobre o maligno.

Ao longo da história, inúmeros papas reafirmaram essa doutrina. São Paulo VI advertia que quem nega a existência do demônio afasta-se do ensinamento bíblico e eclesial. Bento XVI insistiu que a interpretação da Escritura jamais pode ser reduzida a uma leitura puramente histórica, enquanto o Papa Francisco recordou diversas vezes que o diabo não é um símbolo ou uma abstração, mas um ser pessoal que procura afastar o homem de Deus. Essas afirmações mostram que a doutrina da Igreja permanece coerente e contínua.

O episódio revela a importância de interpretar corretamente a Palavra de Deus. A pesquisa bíblica é indispensável e o estudo histórico oferece contribuições valiosas para compreender os textos sagrados. Entretanto, para os católicos, a Escritura nunca é interpretada isoladamente, mas dentro da fé da Igreja, iluminada pela Tradição e pelo Magistério. É exatamente essa perspectiva que a Associação Internacional dos Exorcistas buscou recordar ao responder às declarações que reacenderam o debate sobre a presença do diabo no relato do Gênesis.

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