A Igreja Católica vive um período de importantes mudanças em seu episcopado. Diversos bispos brasileiros alcançaram ou estão alcançando os 75 anos de idade, momento em que, conforme determina o Código de Direito Canônico (cân. 401, §1), apresentam ao Santo Padre o pedido de renúncia ao governo pastoral de suas dioceses. Trata-se de um procedimento normal na vida da Igreja, que permite a continuidade da missão evangelizadora por meio da escolha de novos pastores.
Entre os prelados que vivem esse momento estão o arcebispo de Florianópolis, Dom Wilson Tadeu Jönck, e o arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Dom Orani João Tempesta. Embora a apresentação da renúncia não produza efeitos imediatos — pois cabe ao Papa aceitá-la e definir o momento oportuno da sucessão —, cada mudança episcopal representa uma ocasião privilegiada para refletir sobre os desafios pastorais que aguardam os novos bispos.
Entre esses desafios está um ministério frequentemente pouco lembrado, mas de enorme importância para a vida da Igreja: o ministério do exorcismo.
O bispo é o primeiro responsável pelo ministério do exorcismo
Muitas pessoas associam o exorcismo apenas aos casos extraordinários de possessão demoníaca retratados pelo cinema. A realidade da Igreja, porém, é muito diferente.
O Código de Direito Canônico estabelece que ninguém pode realizar legitimamente um exorcismo maior sem licença expressa do bispo diocesano (cân. 1172). Isso significa que o bispo é o primeiro responsável por esse ministério em sua Igreja particular. Cabe a ele discernir a necessidade pastoral, escolher sacerdotes de comprovada piedade, prudência, equilíbrio humano, sólida formação teológica e experiência espiritual para exercerem essa missão em seu nome.
O sacerdote exorcista jamais atua por iniciativa própria. Seu ministério é uma extensão da autoridade pastoral do bispo, exercido sempre em comunhão com a Igreja e segundo as normas estabelecidas pela Santa Sé.
Uma recomendação que alcança toda a Igreja
A importância desse ministério não decorre apenas do aumento das demandas pastorais observadas nas últimas décadas. A própria Santa Sé tem insistido para que as dioceses estejam preparadas para responder adequadamente aos casos de influência extraordinária do maligno.
A Associação Internacional dos Exorcistas, entidade oficialmente reconhecida pela Igreja, recorda que a Penitenciaria Apostólica tem orientado os bispos para que cada diocese disponha de ao menos um sacerdote devidamente preparado e nomeado para exercer esse ministério. Quando isso não é possível, permanece ao bispo a responsabilidade direta de garantir que os fiéis tenham acesso ao discernimento e ao atendimento pastoral necessários.
No Brasil, essa preocupação também foi manifestada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que já incentivou os bispos a providenciarem sacerdotes preparados para esse serviço, reconhecendo que o combate espiritual faz parte da missão evangelizadora da Igreja e exige formação séria, prudência e fidelidade à doutrina católica.
Um serviço pastoral muito além do rito do exorcismo
Ao contrário do imaginário popular, a maior parte do trabalho de um exorcista não consiste na celebração do rito solene do exorcismo.
Na prática, esses sacerdotes dedicam grande parte do seu ministério ao acolhimento de pessoas em sofrimento espiritual, ao discernimento entre problemas de natureza espiritual, psicológica e psiquiátrica, ao encaminhamento para profissionais da saúde quando necessário e, sobretudo, ao incentivo à vida sacramental, à oração, à confissão frequente e ao retorno sincero a Deus.
Os exorcistas mais experientes costumam afirmar que apenas uma pequena parcela dos casos examinados exige efetivamente a celebração do exorcismo maior. A maioria encontra resposta na vida sacramental e no acompanhamento espiritual oferecido pela Igreja.
Ribeirão Preto mostra que o tema permanece atual
A necessidade desse ministério voltou recentemente ao centro das atenções com a decisão da Arquidiocese de Ribeirão Preto de nomear oficialmente um sacerdote para exercer o ministério do exorcismo.
Segundo a própria Arquidiocese, a medida responde às necessidades espirituais dos fiéis e busca oferecer um atendimento pastoral organizado aos casos que exijam discernimento específico. A iniciativa demonstra que, longe de ser uma prática pertencente ao passado, o ministério do exorcismo continua sendo considerado uma necessidade concreta em diversas Igrejas particulares.
Esse exemplo também revela que o fortalecimento desse serviço pastoral não representa uma valorização do extraordinário, mas uma resposta responsável da Igreja diante do crescimento de práticas ocultistas, do esoterismo, da magia, da Nova Era e de outras formas de espiritualidade incompatíveis com a fé cristã.
As grandes dioceses diante de um desafio pastoral
A sucessão episcopal oferece uma oportunidade para refletir sobre uma questão importante: as grandes arquidioceses brasileiras possuem estrutura suficiente para responder às necessidades relacionadas ao discernimento espiritual?
Em dioceses com milhões de habitantes, milhares de comunidades e centenas de sacerdotes, a existência de um serviço organizado para acolher pessoas que enfrentam possíveis situações de influência extraordinária do maligno pode representar um importante auxílio aos párocos e aos próprios fiéis.
Naturalmente, nem todas as dioceses divulgam publicamente a identidade de seus exorcistas, seja por prudência pastoral, seja para evitar uma procura desordenada por esse ministério. Ainda assim, permanece legítima a reflexão sobre a conveniência de que dioceses de grande porte contem com sacerdotes especialmente preparados para esse serviço, conforme a orientação da própria Igreja.
Um olhar para o futuro
Cada novo bispo traz consigo dons, experiências e prioridades pastorais próprias. Evangelização, formação doutrinal, vocações, família, juventude e ação social continuarão sendo pilares indispensáveis da missão da Igreja. No entanto, o cuidado com aqueles que sofrem no combate espiritual também merece atenção.
O recente exemplo da Arquidiocese de Ribeirão Preto demonstra que algumas Igrejas particulares têm compreendido a importância de fortalecer esse ministério. Diante das mudanças que ocorrem no episcopado brasileiro, surge uma reflexão oportuna: não seria este também um momento favorável para que os novos bispos avaliem a organização e o fortalecimento do ministério do exorcismo em suas dioceses, especialmente naquelas de maior dimensão?
Essa não é uma questão de curiosidade sobre fenômenos extraordinários, mas de cuidado pastoral. A missão da Igreja permanece anunciar Cristo, administrar os sacramentos e conduzir os fiéis à santidade. Porém, como ensina o Catecismo da Igreja Católica, a luta contra o mal também faz parte da vida cristã, e a Igreja continua sendo chamada a oferecer, por meio de seus pastores, todos os recursos espirituais que Cristo lhe confiou para conduzir seus filhos à verdadeira liberdade.