A Al Jazeera trouxe à tona um dos retratos mais impactantes e controversos do catolicismo contemporâneo no documentário 101 East, ao investigar a explosão de casos de exorcismo maior nas Filipinas, país que abriga a maior população católica da Ásia. Diferentemente de abordagens sensacionalistas comuns na mídia ocidental, o documentário mergulha em casos reais, acompanhados por sacerdotes exorcistas oficialmente nomeados pela Igreja Católica Apostólica Romana, sob normas diretas da Santa Sé. O resultado é um material denso, perturbador e teologicamente relevante, que expõe o delicado ponto de tensão entre fé, ciência, sofrimento humano e discernimento espiritual.
O fio condutor do documentário é o caso de Rosa Maria, uma mulher católica praticante, mãe de duas crianças, que há mais de dois anos se submete a rituais de exorcismo após episódios recorrentes de agressividade involuntária, aversão a objetos sagrados, vozes internas hostis e perda de controle corporal. A equipe da Al Jazeera acompanha momentos íntimos da família, revelando o impacto devastador desses episódios na vida conjugal, na maternidade e na fé cotidiana. O sofrimento não é apresentado como espetáculo, mas como drama humano real, vivido dentro de um lar profundamente religioso que interpreta tais manifestações como possessão demoníaca.
No centro do documentário está o sacerdote Padre Jose Francisco Syquia, exorcista-chefe da Arquidiocese de Manila e presidente da associação filipina de exorcistas católicos. Com mais de duas décadas de atuação, ele supervisiona cerca de 200 exorcistas no país e é reconhecido pelo Vaticano como autoridade no tema. Diferente da caricatura popular do exorcista impulsivo, Padre Syquia aparece como um clérigo cauteloso, formado também em psicologia, que insiste na necessidade de discernimento rigoroso, envolvendo médicos e profissionais da saúde mental antes de autorizar o exorcismo maior.
Abaixo, você poderá assistir uma edição especial com dublagem, preparada para os leitores do nosso site:
O documentário deixa claro que o exorcismo maior não é um ato improvisado. Trata-se de um ritual litúrgico reservado exclusivamente a sacerdotes autorizados pelo bispo, seguindo diretrizes do Vaticano, que exigem investigação prévia e acompanhamento contínuo. O próprio Padre Syquia relata um erro grave cometido no passado, quando um problema cardíaco não foi identificado em uma paciente idosa submetida ao rito, resultando em sua morte. Esse episódio marcou profundamente sua atuação e reforça, no documentário, a consciência de que o ministério do exorcismo envolve riscos reais quando o discernimento falha.
Ao mesmo tempo, a Al Jazeera apresenta o contraponto da psiquiatria filipina por meio da psicóloga Hazel Malazarte, que alerta para o perigo da superinterpretação espiritual em um país com escassez crítica de profissionais de saúde mental. Segundo ela, transtornos como esquizofrenia, epilepsia, transtorno bipolar e transtorno dissociativo podem ser confundidos com possessão demoníaca, atrasando tratamentos médicos e agravando o sofrimento. O documentário expõe, assim, um problema estrutural: em uma sociedade profundamente religiosa, a busca por ajuda espiritual frequentemente antecede — ou substitui — o cuidado clínico.
Um dos pontos mais inquietantes da produção é a abordagem das chamadas possessões coletivas, especialmente em escolas. Em uma cidade do interior, adolescentes entram simultaneamente em estado de transe, gritos, convulsões e força desproporcional. Enquanto psicólogos falam em histeria coletiva ou contágio emocional, sacerdotes interpretam como opressão demoníaca múltipla. A narrativa revela como comunidades inteiras ficam paralisadas pelo medo, recorrendo imediatamente a líderes religiosos, inclusive pastores de outras denominações cristãs, quando não há padres católicos disponíveis.
O documentário também oferece um raro vislumbre do interior do ritual do exorcismo maior. As orações começam em língua vernácula, mas o confronto direto ocorre em latim, idioma tradicional da Igreja para esse fim. Segundo os exorcistas, o uso do latim não é simbólico, mas estratégico: evita impactos psicológicos negativos no paciente e, ao mesmo tempo, é compreendido pelos demônios, que — segundo a demonologia cristã — conhecem todas as línguas. O momento mais tenso ocorre quando a entidade manifesta um nome, sinal interpretado como enfraquecimento do espírito maligno.
Ao final, o documentário não oferece respostas fáceis. Rosa Maria relata alívio temporário após o rito, mas reconhece que a libertação plena exige disciplina espiritual contínua: sacramentos, oração, confissão frequente e mudança de vida. Para os psicólogos, o quadro permanece compatível com um transtorno dissociativo. Para os exorcistas, trata-se de uma batalha espiritual prolongada. A Al Jazeera opta por não julgar, mas expor, permitindo que o espectador encare a complexidade do fenômeno.
O grande mérito do documentário está em mostrar que o exorcismo católico contemporâneo não vive à margem da Igreja, nem se reduz a superstição popular. Ele é institucional, regulamentado, teologicamente fundamentado e, ao mesmo tempo, profundamente controverso. Nas Filipinas, onde fé, pobreza, trauma e escassez de saúde mental se cruzam, o exorcismo surge não apenas como rito religioso, mas como resposta cultural ao sofrimento extremo. O filme deixa claro: independentemente da interpretação adotada, o drama vivido por essas pessoas é real — e exige responsabilidade espiritual, pastoral e humana.


