Por que o católico não pode fazer correntes?

Nos últimos anos, tornaram-se cada vez mais comuns, inclusive entre católicos, as chamadas “correntes” religiosas: mensagens, práticas ou orações acompanhadas de exigências como repetições obrigatórias, compartilhamentos em cadeia ou ameaças veladas de que algo negativo acontecerá caso não sejam cumpridas. Muitas dessas correntes utilizam nomes de santos, passagens bíblicas ou fórmulas de oração cristã, o que gera confusão entre os fiéis e cria a falsa impressão de que se trata de uma prática legítima da fé católica. No entanto, à luz da doutrina da Igreja, da Sagrada Escritura e da Tradição, a prática das correntes não é compatível com a fé católica e constitui um pecado contra o Primeiro Mandamento.

O Primeiro Mandamento e a fé verdadeira

O Primeiro Mandamento da Lei de Deus — “Eu sou o Senhor teu Deus… não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20,2-3) — exige que o fiel coloque toda a sua confiança, esperança e amor unicamente em Deus. Conforme ensina o Catecismo da Igreja Católica, esse mandamento não se refere apenas à idolatria explícita, mas também a toda forma de desvio interior que substitui Deus por práticas, objetos ou mecanismos humanos.

O Catecismo afirma de modo claro:

“A superstição é um desvio do sentimento religioso e das práticas que este impõe. Pode até afetar o culto que prestamos ao verdadeiro Deus.”

A corrente se enquadra exatamente nesse desvio, pois atribui eficácia espiritual não à graça de Deus, mas ao cumprimento mecânico de uma ação, rompendo com a essência da fé cristã.

Correntes e superstição: uma falsa espiritualidade

Na lógica das correntes, a bênção ou a proteção divina estaria condicionada a atos como repetir uma oração um número específico de vezes, reenviar uma mensagem ou cumprir etapas predeterminadas. Isso cria uma mentalidade supersticiosa, na qual o fiel passa a acreditar que o poder está no rito em si, e não em Deus.

A Sagrada Escritura condena explicitamente esse tipo de atitude. O próprio Cristo adverte:

“Nas vossas orações, não multipliqueis palavras como fazem os pagãos, que pensam ser ouvidos à força de muitas palavras.”

A oração cristã não é mágica, não funciona por automatismo e não obriga Deus a agir. Ela é um diálogo de amor, confiança e abandono à vontade divina.

A manipulação do medo e a distorção da imagem de Deus

Um elemento particularmente grave das correntes é o uso do medo espiritual. Muitas afirmam, de forma explícita ou implícita, que desgraças, perdas ou castigos ocorrerão se a pessoa não as cumprir. Essa lógica é completamente incompatível com a revelação cristã.

A Escritura é clara:

“No amor não há temor. O amor perfeito lança fora o temor.”

Apresentar Deus como alguém que pune automaticamente quem não realiza uma prática supersticiosa é deturpar a sua paternidade, reduzindo-o a uma força impessoal ou a um ídolo vingativo, algo severamente condenado pela fé católica.

A visão dos Padres da Igreja

Os Padres da Igreja sempre combateram práticas supersticiosas, mesmo quando revestidas de linguagem religiosa. Santo Agostinho, ao tratar da verdadeira religião, advertia que qualquer prática que atribua poder espiritual a ritos mecânicos afasta o fiel da confiança em Deus:

“A superstição escraviza a alma, enquanto a verdadeira fé a liberta para confiar em Deus.”

Da mesma forma, São João Crisóstomo condenava práticas repetitivas feitas por medo ou interesse, afirmando que a oração não deve ser um meio de coagir Deus, mas de conformar o coração humano à sua vontade.

Correntes e a tentativa de controlar o divino

Outro ponto central é que as correntes expressam, ainda que de forma inconsciente, uma tentativa de controlar o agir de Deus. Ao estabelecer uma sequência obrigatória de ações para “garantir” uma graça, o fiel deixa de confiar na Providência e passa a depender de um sistema paralelo de segurança espiritual.

O Catecismo ensina:

“A confiança na Providência divina deve excluir toda forma de superstição.”

A fé católica não admite atalhos espirituais nem garantias mágicas. Tudo é dom gratuito de Deus, concedido segundo sua sabedoria e amor.

O que a Igreja propõe em lugar das correntes

A Igreja convida o fiel a viver:

  • a oração sincera, livre e consciente;

  • os sacramentos, especialmente a Eucaristia e a Confissão;

  • a vida de fé, esperança e caridade;

  • a confiança total na Providência divina.

Esses são os meios legítimos e seguros de crescimento espiritual, sempre enraizados na liberdade dos filhos de Deus, e não no medo ou na superstição.

À luz da doutrina católica, da Sagrada Escritura e da Tradição da Igreja, fica claro que as correntes:

  • configuram superstição;

  • ferem o Primeiro Mandamento;

  • deturpam a verdadeira oração cristã;

  • enfraquecem a confiança na Providência divina;

  • e apresentam uma falsa imagem de Deus.

Por isso, o católico não deve praticar, divulgar nem incentivar correntes, mesmo quando aparentam piedade ou utilizam linguagem religiosa. A fé católica é vivida na liberdade, na confiança e no amor, jamais no medo ou na barganha espiritual.

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