Em tempos de grande efusão espiritual e também de confusão religiosa, muitos católicos se deparam com um dilema inquietante: o dom de línguas, presente na vida dos santos e em grupos de oração, seria uma manifestação do Espírito Santo ou, como alguns alegam, uma abertura ao maligno? No Brasil, essa dúvida cresceu especialmente após interpretações apressadas do Ritual de Exorcismos, que menciona a fala em línguas desconhecidas como um possível indício de possessão demoníaca. Mas aqui é necessário separar, com clareza doutrinal e espiritual, o que vem de Deus e o que é manipulado pelo inimigo. O Catecismo da Igreja Católica (n. 2003) ensina que “há também graças especiais, chamadas carismas […], destinados ao bem comum da Igreja”. Entre esses carismas está o dom de línguas, evidenciado na Sagrada Escritura e confirmado pela tradição viva da Igreja.
Desde o dia de Pentecostes, o dom de línguas é reconhecido como uma das manifestações do Espírito Santo. Em Atos 2,4 lemos: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.” Essas línguas eram compreendidas por pessoas de diferentes nações, como relatado em Atos 2,6-11, revelando o caráter evangelizador e comunicativo desse dom. São Paulo também trata dessa graça espiritual em 1 Coríntios 12 e 14, apresentando-a como um dom legítimo, mas que deve ser exercido com discernimento e ordem: “Quem fala em línguas, edifica-se a si mesmo” (1Cor 14,4), mas “se não houver intérprete, permaneça calado na assembleia” (1Cor 14,28). A Igreja, portanto, sempre reconheceu esse dom como sinal da presença divina, desde que esteja em harmonia com a fé e os frutos do Espírito (cf. Gl 5,22-23).
Por outro lado, o Ritual de Exorcismos da Igreja Católica, em sua Parte II, n. 16, lista como possíveis sinais de possessão: “falar línguas desconhecidas ou entender aquelas que nunca foram aprendidas”, entre outros. No entanto, aqui a expressão “línguas desconhecidas” refere-se a uma manifestação involuntária, desordenada e não orientada à edificação, mas à confusão e à opressão. Essas manifestações não surgem de uma abertura ao Espírito, mas são frutos da presença opressiva do maligno, que tenta imitar os dons de Deus para enganar e desviar os fiéis. O que diferencia um do outro não é apenas a forma, mas os frutos e o espírito que o move. O próprio Jesus nos alertou: “É pelos frutos que conhecereis a árvore” (Mt 7,16). Um dom que conduz à adoração, à paz interior e à comunhão com a Igreja é, claramente, obra do Espírito Santo.
Não se pode confundir o verdadeiro dom de línguas com as distorções que o inimigo tenta semear. O dom espiritual é fruto da oração, da humildade e do desejo de glorificar a Deus. Já a manifestação demoníaca vem acompanhada de rebeldia, distorção doutrinal, escárnio ao sagrado e, muitas vezes, aversão aos sacramentos. O exorcista oficial, ao discernir esses sinais, observa não apenas a fala, mas o contexto espiritual e comportamental do indivíduo. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica (n. 1673), o exorcismo é praticado para “expulsar os demônios ou libertar da influência demoníaca por meio da autoridade espiritual que Jesus confiou à sua Igreja.” Ou seja, é no contexto de libertação de opressões graves e extraordinárias que se manifesta tal sinal de fala em línguas incompreensíveis de forma involuntária.
Portanto, é essencial que os católicos não cedam à confusão. O dom de línguas, quando verdadeiro, é sinal da presença viva do Espírito Santo, como testemunhado pelos apóstolos, santos e fiéis ao longo da história da Igreja. Já a fala em línguas como indício de possessão se dá em contextos completamente diferentes, sendo necessária uma avaliação criteriosa e, muitas vezes, o ministério do exorcista. Cabe aos cristãos buscar uma fé equilibrada, enraizada na doutrina e aberta aos carismas, com discernimento e obediência à Igreja. Como nos orienta São João: “Não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus” (1Jo 4,1). Que o Espírito Santo nos conduza à verdade plena e nos livre de todo engano.