No dia 16 de abril de 2025, o mundo católico recebeu com júbilo o anúncio do 72.º milagre oficialmente reconhecido no Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, na França. A cura inexplicável de Antonia (Antonietta) Raco, italiana de 67 anos, portadora de esclerose lateral amiotrófica (ELA) desde 2006, foi declarada “cientificamente inexplicável, completa e duradoura” após um criterioso processo de avaliação médica e eclesiástica. A Igreja, com prudência e discernimento, constatou não apenas a ausência total da doença, mas também o testemunho de fé que acompanha esse milagre. Como nos lembra o Catecismo: “Os milagres fortalecem a fé naqueles que creem” (CIC 548), e este caso reforça que, mesmo nos dias de hoje, Deus continua a agir de forma extraordinária através da intercessão dos santos, especialmente de Maria, Mãe da Misericórdia.
A jornada rumo à cura teve início em 2009, quando Antonia peregrinou ao Santuário de Lourdes com a associação italiana Unitalsi, acompanhada pelo marido. Enfrentava um quadro de progressiva limitação: cadeira de rodas, dificuldades para respirar e engolir, e dores constantes. Durante sua imersão nas piscinas de Lourdes, experimentou um momento singular: ouviu três vezes uma voz feminina e serena dizendo: “Não tenhas medo!”. Esse detalhe é profundamente bíblico — é a mesma exortação dita pelo anjo a Maria (Lc 1,30), por Jesus aos apóstolos (Mt 14,27), e por Deus aos profetas. Em suas palavras: “Eu chorei muito e senti uma paz imensa”. A mensagem ressoou em sua alma como um chamado à confiança. Embora sentisse dores intensas nas pernas, permaneceu em silêncio, deixando que o mistério de Deus se desenrolasse em sua carne e espírito.
Ao regressar à sua casa, em Francavilla in Sinni, percebeu sinais de uma transformação interior. Certa de que “algo havia mudado”, compartilhou com seu pároco e com o marido o que havia experimentado em Lourdes. Então, algo extraordinário aconteceu: ela se levantou sozinha pela primeira vez em anos, sem ajuda, sem dor, com plena mobilidade. Aquilo que parecia impossível pela medicina havia se realizado. Como diz o Evangelho: “Para Deus, nada é impossível” (Lc 1,37). A cura trouxe também uma conversão espiritual: de enferma, ela se tornou testemunha viva da ação misericordiosa de Deus, comprometendo-se a seguir servindo os enfermos como voluntária em Lourdes, no mesmo lugar onde recebeu a graça. Ela afirma: “Ali fui curada e ali hoje sirvo, porque não posso guardar esse amor apenas para mim”.
O processo de reconhecimento do milagre foi longo e criterioso. Inicialmente, o diagnóstico de ELA, feito em 2006, era considerado definitivo. No entanto, em 2020, com o surgimento de novos critérios internacionais de avaliação da doença, o caso foi reexaminado pelo Comitê Médico Internacional de Lourdes. A nova análise, conduzida pelo neurologista Vincenzo Silani, confirmou que a cura era total, permanente e sem qualquer explicação científica plausível. Em 2023, o Comitê votou: 17 dos 21 especialistas declararam que a cura cumpria todos os critérios médicos de milagre, superando os dois terços exigidos. Finalmente, em abril de 2025, Dom Vincenzo Carmine Orofino, bispo de Tursi-Lagonegro, reconheceu oficialmente o milagre. O Catecismo nos ensina que: “Os milagres não são contrários à natureza, mas apenas ao que conhecemos da natureza” (cf. CIC 156).
Atualmente, Antonia é voluntária ativa como Hospitaleira de Lourdes, usando o uniforme branco e azul das mulheres que auxiliam enfermos no santuário. Ela dedica sua vida àqueles que sofrem, assim como um dia foi acolhida. Esse gesto é um eco do que nos diz Jesus: “Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça dai!” (Mt 10,8). Seu testemunho foi compartilhado oficialmente com a imprensa em 25 de julho de 2025, durante coletiva em Lourdes. Ali, ela afirmou que o verdadeiro milagre não foi apenas físico, mas espiritual: “Minha fé se renovou, e compreendi que Deus age no tempo d’Ele, não no nosso. Fui curada porque aprendi a confiar”. Sua história comove peregrinos de todo o mundo, sendo exemplo de que a esperança cristã nunca decepciona (Rm 5,5).
Lourdes continua sendo um dos maiores sinais da presença materna de Maria na história da Igreja. Das mais de 7.000 curas relatadas desde 1858, apenas 72 foram oficialmente reconhecidas como milagres, o que revela a seriedade com que a Igreja trata tais casos. Como nos recorda o Catecismo: “As curas milagrosas […] são sinais da vinda do Reino por meio da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte” (CIC 1505). A cura de Antonia Raco é um desses sinais que nos recordam que a fé pode mover montanhas, e que, mesmo diante do diagnóstico mais sombrio, Deus pode restaurar o corpo e a alma. O milagre também nos convida à conversão: mais do que buscar curas extraordinárias, somos chamados a reconhecer a ação de Deus nas pequenas coisas, a perseverar na oração e a abrir o coração à Sua vontade.
O testemunho de Antonia é um chamado à confiança em tempos difíceis. “Não tenhas medo” — essa foi a frase que ouviu nas piscinas de Lourdes, e essa deve ser também a resposta que damos aos sofrimentos de nossa vida. Como nos ensina São João Paulo II: “Não tenhais medo! Abri, antes, escancarai as portas a Cristo!” (Homilia de início de pontificado, 1978). Ao contemplar esse milagre, somos convidados a recordar que, mesmo na dor, Deus não nos abandona. O milagre é mais que um fato físico: é um toque de eternidade em nossa condição mortal. Que a cura de Antonia Raco desperte em nossos corações um desejo sincero de santidade, de abandono à vontade de Deus e de confiança na intercessão da Virgem Maria, a Imaculada de Lourdes, que continua a dizer a seus filhos: “Rezem, façam penitência, e confiem”.