Introdução
Nas últimas décadas, observa-se um crescimento significativo do interesse dos fiéis pelas realidades espirituais ligadas ao mal, à opressão e à possessão diabólica. Esse fenômeno não surge do nada, mas acompanha uma percepção cada vez mais clara de que o combate espiritual faz parte da missão confiada por Cristo à sua Igreja. No entanto, ao buscarem auxílio, muitos fiéis se deparam com uma realidade desconcertante: em diversas dioceses não existe um exorcista oficialmente nomeado. Essa constatação gera perplexidade, insegurança e, por vezes, críticas precipitadas à autoridade eclesiástica. Afinal, como compreender essa ausência à luz da fé católica, da disciplina da Igreja e da experiência pastoral acumulada ao longo dos séculos?
1. O que a Igreja realmente exige: o dado canônico e doutrinal
Do ponto de vista jurídico, o Código de Direito Canônico não impõe de maneira absoluta que toda diocese tenha um exorcista permanentemente nomeado. O cânon 1172 estabelece que ninguém pode realizar exorcismos legitimamente sobre os possessos sem permissão especial e expressa do Ordinário do lugar, e recomenda que tal permissão seja concedida apenas a presbíteros dotados de piedade, ciência, prudência e integridade de vida. Trata-se, portanto, de uma forte recomendação pastoral, não de uma obrigação automática. O bispo diocesano, como pastor próprio da Igreja particular que lhe foi confiada, é quem discerne se, quando e como nomear um exorcista, levando em conta a realidade concreta de sua diocese.
Do ponto de vista doutrinal, a Igreja nunca deixou de afirmar a existência do demônio e sua ação ordinária e extraordinária no mundo. O Catecismo da Igreja Católica ensina claramente que Satanás é um ser pessoal e real, ainda que limitado pelo poder de Deus. O exorcismo, nesse contexto, não é um resquício de mentalidade medieval, mas uma expressão da autoridade confiada por Cristo à Igreja para libertar os fiéis do poder do maligno.
2. O silêncio histórico e suas consequências pastorais
Para compreender por que ainda existem dioceses sem exorcistas nomeados, é necessário olhar para a história recente da Igreja. Durante boa parte do século XX, especialmente no contexto pós-conciliar, difundiu-se em alguns ambientes teológicos e pastorais uma tendência a minimizar a ação do demônio, reduzindo muitos fenômenos espirituais a explicações exclusivamente psicológicas ou sociológicas. Esse clima de desconfiança em relação ao tema contribuiu para que o ministério do exorcismo fosse progressivamente relegado a segundo plano, desaparecendo da prática pastoral ordinária de muitas dioceses.
Essa realidade foi amplamente denunciada pelo saudoso Gabriele Amorth, exorcista da Diocese de Roma por mais de trinta anos. Segundo ele, um dos maiores danos causados à vida espiritual do povo de Deus foi justamente o abandono prático do exorcismo, não por decisão consciente da Igreja, mas por uma espécie de esquecimento teológico e pastoral. Onde o demônio deixou de ser levado a sério, o exorcista deixou de ser considerado necessário.
3. Dificuldades concretas e discernimento episcopal
Além das razões históricas, existem dificuldades muito concretas que ajudam a explicar a ausência de exorcistas oficialmente nomeados em algumas dioceses. O ministério do exorcismo exige não apenas fé sólida e vida espiritual equilibrada, mas também formação específica, maturidade psicológica e capacidade de trabalhar em colaboração com profissionais da área da saúde mental. Nem todo sacerdote está preparado ou disponível para assumir uma missão tão exigente, que envolve sofrimento humano intenso, sigilo absoluto e grande desgaste espiritual.
Em dioceses menores ou com escassez de clero, o bispo pode optar por encaminhar eventuais casos a exorcistas de dioceses vizinhas ou a centros de referência reconhecidos, em vez de nomear um exorcista próprio. Essa decisão, quando tomada com prudência e responsabilidade, não configura negligência, mas uma forma legítima de governo pastoral, desde que os fiéis não fiquem desamparados.
4. Os riscos de uma ausência mal compreendida
O problema surge quando a ausência de um exorcista oficialmente nomeado não é acompanhada de orientações claras e caminhos seguros de acolhimento e discernimento. Nesses casos, como alertava Padre Amorth, o sofrimento não desaparece; apenas muda de lugar. Fiéis acabam buscando ajuda fora da Igreja, em práticas espirituais perigosas ou em grupos que não possuem mandato, formação nem autoridade para lidar com situações de possível ação extraordinária do maligno.
No contexto brasileiro, essa lacuna pastoral favorece ainda a confusão entre oração de libertação, que pode ser feita por leigos em determinados contextos, e o exorcismo maior, que é reservado exclusivamente a sacerdotes autorizados. A ausência de um exorcista pode, paradoxalmente, abrir espaço para improvisações, abusos e graves desvios doutrinais, ainda que motivados por boa intenção.
Conclusão: prudência, formação e fidelidade
À luz da Sagrada Escritura, da Tradição viva da Igreja e do Magistério, fica claro que o exorcismo não é um espetáculo nem uma obsessão, mas um serviço de caridade pastoral. A existência de dioceses sem exorcista oficialmente nomeado pode ser explicada por fatores históricos, culturais e práticos, mas nunca deve resultar no abandono dos fiéis que sofrem. Como ensinava Padre Gabriele Amorth, a Igreja não combate o mal com improvisação, mas com autoridade, discernimento e obediência. Onde não há um exorcista nomeado, deve haver, ao menos, clareza pastoral, formação adequada e caminhos seguros que preservem a fé, a dignidade humana e a integridade da doutrina católica.
Referências
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Bíblia Sagrada, Mc 16,17; Ef 6,10-17
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Catecismo da Igreja Católica, nn. 391-395; 1673
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Código de Direito Canônico, cân. 1172
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Ritual Romano – De Exorcismis et Supplicationibus Quibusdam
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Amorth, Gabriele. Um Exorcista Conta-nos. Paulus
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Associação Internacional dos Exorcistas – Documentos e orientações oficiais


