A cura total não é apenas a ausência de sintomas ou a suspensão de um sofrimento momentâneo. Na tradição da Igreja, cura é um processo de reintegração da pessoa com Deus, com os outros e consigo mesma. Jesus, durante seu ministério terreno, curava de maneira integral — tocava o corpo, mas também libertava a alma. Cada passo rumo à cura total é, na verdade, um retorno ao Coração do Pai. O Evangelho mostra que muitos enfermos que se aproximaram de Jesus o fizeram não apenas com o corpo ferido, mas com a alma em ruínas. A mulher hemorroíssa, por exemplo, sofria há doze anos, mas foi a fé que a curou: “Filha, a tua fé te salvou; vai em paz e fica curada desse teu mal” (Mc 5,34). Essa cura total envolve etapas espirituais que cada fiel pode trilhar com a graça divina. Não se trata de mágica, nem de fórmula instantânea. É um itinerário. Um processo. Um caminho que envolve fé, renúncia, entrega, perdão e confiança absoluta no poder de Deus.
O primeiro passo é reconhecer a necessidade de cura. Muitos vivem negando as próprias feridas, tentando camuflá-las com atividades, distrações ou até mesmo com práticas religiosas vazias. A cura começa quando o fiel se coloca diante de Deus como está — sem máscaras. O Salmo 32 já nos revela: “Enquanto calei o meu pecado, meus ossos se consumiam” (Sl 32,3). Admitir a dor, confessar as fragilidades, abrir o coração diante do Senhor é o início da restauração. E isso se dá principalmente na oração sincera e no sacramento da reconciliação. Quando uma alma se despe de suas justificativas e se apresenta com humildade, Deus começa a agir profundamente. São João Paulo II dizia que “não há pecado tão grande que não possa ser vencido pelo amor misericordioso de Deus”. Por isso, reconhecer-se ferido não é sinal de fraqueza, mas o início da cura verdadeira.
O segundo passo é perdoar e pedir perdão. Muitas doenças físicas e psíquicas têm raízes em mágoas antigas, traumas não resolvidos, rancores guardados por décadas. O perdão é como uma chave que destranca o coração e permite a entrada da graça. Perdoar não é esquecer, mas é libertar-se da prisão emocional que o ódio causa. Jesus nos ensinou: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará” (Mt 6,14). Muitos carregam doenças que não são apenas do corpo, mas da alma que se fechou ao perdão. Da mesma forma, pedir perdão e fazer as pazes com aqueles que ferimos também é essencial. O orgulho precisa dar lugar à humildade, e isso exige decisão. A cura total envolve um coração reconciliado — consigo, com os outros e com Deus.
O terceiro passo é renunciar ao pecado e às obras das trevas. Muitos pedem cura, mas continuam em situações de pecado habitual — vícios, práticas ocultistas, infidelidade, desonestidade. A graça de Deus não pode habitar onde há deliberada resistência à verdade. Como diz o Catecismo da Igreja Católica: “O pecado é antes de tudo ofensa a Deus, ruptura da comunhão com Ele” (CIC 1440). Se queremos cura total, é necessário cortar os laços com tudo o que alimenta a doença espiritual. Renunciar ao pecado é romper com o que nos distancia da luz de Cristo. É preciso abandonar o oculto, fechar as portas para o mal, destruir objetos consagrados ao mal, renunciar verbalmente e com autoridade ao que contamina a alma. Um passo importante é buscar a orientação de um sacerdote, confessar com arrependimento sincero e permitir que a graça do sacramento da penitência restaure o coração.
O quarto passo é mergulhar na Palavra de Deus. A Palavra é viva e eficaz, e tem poder de restaurar o que está quebrado. A Bíblia está repleta de promessas de cura, libertação e restauração. Quando meditamos as Escrituras, elas operam transformação interior. “Enviou a sua palavra e os curou, e os livrou da morte” (Sl 107,20). Muitos curados relatam que, ao meditar diariamente a Palavra, começaram a experimentar consolo, direção e força. A cura total passa também pela renovação da mente, e isso só é possível com a luz da verdade revelada. Substituir os pensamentos negativos, de acusação ou de derrota, por versículos que proclamam a vida, o amor e o poder de Deus é um passo de fé que gera frutos profundos.
O quinto passo é buscar a oração constante e perseverante. A cura não é, em muitos casos, um evento instantâneo, mas um processo que exige insistência na fé. Jesus conta a parábola da viúva insistente (Lc 18,1-8) justamente para mostrar que Deus ouve quem clama com perseverança. É preciso criar uma rotina de oração, adoração, jejum e participação da Santa Missa. A Eucaristia é fonte de cura total — “Este é o meu corpo dado por vós”. O próprio Jesus se entrega como remédio de imortalidade, como ensina Santo Inácio de Antioquia. Não há cura total sem vida sacramental. A adoração eucarística também tem sido instrumento de cura em muitas dioceses do mundo. Milagres acontecem quando os fiéis adoram o Senhor em espírito e verdade.
Por fim, o sexto passo é viver em comunidade e sob autoridade espiritual. O processo de cura total não é solitário. Deus age também por meio da Igreja, dos irmãos, dos pastores, sejam bispos ou presbíteros e dos ministros de cura. Estar inserido em uma comunidade de fé, onde a intercessão, a partilha e o cuidado mútuo são vivenciados, fortalece o coração. É importante também estar sob direção espiritual, receber orações de intercessão e participar de retiros de cura e libertação. A comunhão dos santos é uma arma poderosa contra o isolamento que o sofrimento pode causar. Como afirma o Apóstolo Tiago: “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para serdes curados” (Tg 5,16). A cura total é dom de Deus, mas também é caminho que se percorre com os irmãos.