Como discernir uma possessão diabólica? Pe. François-Marie Dermine explica os critérios da Igreja

Durante muito tempo, filmes, séries e reportagens fizeram muitas pessoas acreditarem que qualquer comportamento estranho poderia ser sinal de possessão diabólica. No entanto, a Igreja Católica sempre foi extremamente prudente ao tratar desse assunto.

Em uma conferência sobre demonologia, o dominicano e exorcista Pe. François-Marie Dermine explica que a verdadeira possessão é um fenômeno raro e que, antes de qualquer julgamento, é necessário um longo processo de discernimento espiritual, acompanhado, quando necessário, por avaliações médicas e psicológicas.

Segundo o sacerdote, o maior erro é enxergar o demônio em tudo. O segundo é negar completamente sua ação extraordinária. A Igreja evita ambos os extremos.

A possessão diabólica é rara

Uma das primeiras afirmações de Pe. Dermine surpreende muitas pessoas:

“A maioria das pessoas que procura um exorcista não está possessa.”

Grande parte dos casos envolve enfermidades físicas, transtornos psicológicos, sofrimentos emocionais ou dificuldades espirituais comuns à vida cristã.

Por isso, o papel do exorcista não é realizar exorcismos imediatamente, mas discernir cuidadosamente cada situação.

Essa prudência faz parte da tradição da Igreja há séculos.

Quais sinais a Igreja considera?

O Ritual Romano apresenta alguns sinais que podem indicar uma possível possessão, sempre avaliados em conjunto e nunca de forma isolada.

Entre eles estão:

  • falar ou compreender idiomas nunca aprendidos;
  • revelar fatos ocultos impossíveis de conhecer naturalmente;
  • manifestar força física completamente desproporcional;
  • apresentar aversão violenta ao nome de Jesus Cristo, à Santíssima Virgem, à Cruz, às relíquias dos santos ou aos sacramentais da Igreja.

Mesmo diante desses sinais, a Igreja nunca chega imediatamente à conclusão de que existe uma possessão.

Cada caso exige um discernimento profundo.

Nem toda doença é ação do demônio

Pe. Dermine insiste em um ponto frequentemente esquecido.

Nem toda enfermidade possui origem espiritual.

Depressão, ansiedade, transtornos psiquiátricos e outras doenças precisam ser avaliados por profissionais competentes.

Por isso, um exorcista sério trabalha em colaboração com médicos, psicólogos e psiquiatras.

A Igreja nunca colocou a ciência contra a fé.

Ao contrário, ambas podem colaborar na busca da verdade.

A liberdade da pessoa permanece

Outro ensinamento importante da conferência desfaz um equívoco muito comum.

Na possessão diabólica, o demônio não “possui a alma” da pessoa.

A alma pertence a Deus.

Segundo a tradição católica, a ação extraordinária do maligno atinge o corpo e algumas faculdades exteriores, mas não destrói a liberdade interior nem impede que a pessoa ame a Deus ou deseje permanecer fiel.

Esse ensinamento explica por que alguns santos enfrentaram extraordinárias provações espirituais sem jamais perderem sua união com Cristo.

Antes da possessão existe a tentação

Para Pe. Dermine, muitos cristãos concentram toda a atenção na possessão, quando deveriam preocupar-se muito mais com a ação ordinária do demônio: a tentação.

Todos somos tentados.

Foi assim com os santos.

Foi assim com o próprio Jesus no deserto.

A tentação, porém, não é pecado.

O pecado nasce somente quando a vontade consente livremente com o mal proposto.

Por isso, resistir às tentações fortalece a vida espiritual e conduz ao crescimento na virtude.

A maior proteção é a vida sacramental

Ao longo de toda a conferência, Pe. Dermine repete que o centro da vida cristã nunca deve ser o demônio.

O centro é Jesus Cristo.

A principal defesa contra a ação do maligno não está na curiosidade sobre exorcismos, mas na vida de graça.

O sacerdote destaca especialmente:

  • a Confissão frequente;
  • a participação na Santa Missa;
  • a recepção digna da Eucaristia;
  • a oração diária;
  • o conhecimento da Palavra de Deus;
  • a fidelidade ao ensinamento da Igreja.

Quanto mais unida a Cristo estiver uma pessoa, menor será o espaço para a ação do inimigo.

O verdadeiro discernimento começa pela prudência

A conferência de Pe. François-Marie Dermine recorda uma característica constante da Igreja Católica: a prudência.

Nem superstição.

Nem incredulidade.

Nem sensacionalismo.

O verdadeiro discernimento procura primeiro as causas naturais, consulta os profissionais competentes e somente depois considera a possibilidade de uma ação extraordinária do maligno.

Mais do que despertar medo, esse ensinamento fortalece a esperança dos cristãos.

Cristo já venceu Satanás na Cruz.

Por isso, a maior preocupação do fiel não deve ser descobrir onde está o demônio, mas permanecer unido Àquele que já conquistou a vitória definitiva sobre o mal.

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