Uma notícia que circulou nos principais veículos de comunicação do país causou espanto entre muitos cristãos. No município de Tururu, no interior do Ceará, foi erguida uma estátua de aproximadamente 11 metros em homenagem ao diabo, apresentada por sua idealizadora como a maior do mundo. Independentemente das motivações alegadas pelos responsáveis pela obra, o fato suscita uma reflexão muito mais profunda do que uma simples discussão cultural ou artística. Para um católico, não se trata apenas de uma escultura. Trata-se de um símbolo que representa aquele que, desde o princípio, se rebelou contra Deus e continua levando os homens ao pecado e à perdição (cf. Jo 8,44). Diante desse cenário, a pergunta que precisa ser feita é: o que a Igreja Católica ensina sobre uma homenagem pública ao inimigo de Deus?
A resposta não nasce de opiniões pessoais nem de sentimentos religiosos. Ela está fundamentada na Sagrada Escritura, na Tradição da Igreja e no Magistério, que durante dois mil anos ensinaram, de forma constante, que somente Deus é digno de adoração, honra e culto. É justamente por isso que o Primeiro Mandamento ocupa o primeiro lugar entre os mandamentos da Lei de Deus: “Eu sou o Senhor teu Deus… Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida… Não te prostrarás diante delas nem lhes prestarás culto” (Ex 20,2-5). Deus não exige exclusividade por orgulho, mas porque somente Ele é o Criador, o Senhor da história e a fonte da vida eterna.
Não é apenas uma estátua
É importante fazer uma distinção que evita confusões. A Igreja Católica nunca ensinou que uma imagem, por si mesma, possua poder espiritual. A própria Igreja utiliza imagens sacras como instrumentos que recordam Cristo, Nossa Senhora e os santos, conforme foi definido pelo II Concílio de Niceia (787). O problema, portanto, não está na existência material de uma escultura, mas em quem ela representa e na intenção pela qual foi erguida.
Quando uma estátua é construída para homenagear aquele que a Revelação identifica como Satanás, o significado muda completamente. O demônio não é um personagem folclórico, um símbolo do mal ou uma figura mitológica. A Igreja professa que ele é um anjo criado bom por Deus, mas que, por livre escolha, rebelou-se definitivamente contra o Criador. O Catecismo da Igreja Católica ensina:
"A Escritura e a Tradição da Igreja veem nesse ser um anjo decaído, chamado Satanás ou Diabo."
CIC 391.
Pouco adiante, o Catecismo afirma:
"O poder de Satanás não é infinito. Ele é apenas uma criatura."
CIC 395.
Ou seja, Satanás não é um “deus do mal” em oposição a Deus. Ele é apenas uma criatura que se rebelou contra seu Criador e procura arrastar consigo o maior número possível de almas.
O Primeiro Mandamento não admite exceções
O Catecismo inicia a explicação do Primeiro Mandamento recordando que toda a vida cristã nasce da adoração exclusiva ao Senhor:
"Deus faz-se conhecer recordando sua ação onipotente, benevolente e libertadora na história daquele a quem se dirige."
CIC 2084.
Por essa razão:
"O primeiro mandamento manda adorar a Deus e servi-Lo."
CIC 2086.
Por essa razão:
"O primeiro mandamento proíbe honrar outros deuses além do único Senhor."
CIC 2110.
E define a idolatria com palavras que permanecem atuais:
"A idolatria não diz respeito apenas aos falsos cultos do paganismo. Continua sendo uma tentação constante da fé. Consiste em divinizar aquilo que não é Deus."
CIC 2113.
Embora a homenagem ao diabo não constitua idolatria no sentido clássico de atribuir-lhe natureza divina, ela representa uma exaltação pública daquele que é o adversário de Deus, contrariando diretamente a fé cristã e o espírito do Primeiro Mandamento.
A Sagrada Escritura condena qualquer culto aos demônios
A Palavra de Deus é clara ao condenar toda forma de veneração ou culto aos demônios.
No livro do Deuteronômio, Moisés denuncia a infidelidade do povo:
"Sacrificaram aos demônios, que não são Deus."
Dt 32,17.
Séculos depois, São Paulo retoma esse ensinamento para advertir os primeiros cristãos:
"O que os pagãos sacrificam, é aos demônios que o sacrificam e não a Deus. Ora, não quero que entreis em comunhão com os demônios. Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios."
1Cor 10,20-21.
Estas palavras são extremamente fortes. O Apóstolo não trata a questão como uma simples diferença cultural. Para ele, prestar honra espiritual aos demônios é incompatível com a comunhão com Cristo.
O próprio Senhor Jesus revelou qual é o verdadeiro desejo de Satanás. Durante as tentações no deserto, o diabo oferece todos os reinos do mundo em troca de um único gesto:
"Tudo isso te darei se, prostrando-te, me adorares."
Mt 4,9.
Cristo responde imediatamente:
"Vai-te, Satanás! Porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto."
Mt 4,10.
Essa resposta resume toda a doutrina cristã sobre o assunto.
O Catecismo condena toda aproximação com o demônio
Além da proibição de qualquer forma de culto, a Igreja também condena toda tentativa de aproximação espiritual com os demônios.
O Catecismo afirma:
"Todas as práticas de magia ou feitiçaria, pelas quais se pretende domesticar poderes ocultos para colocá-los a seu serviço e obter um poder sobrenatural sobre o próximo, são gravemente contrárias à virtude da religião."
CIC 2117.
Essa condenação inclui consultas espiritistas, invocações demoníacas, pactos, rituais ocultistas e qualquer prática que procure estabelecer relação com os espíritos malignos. O cristão não brinca com aquilo que a Revelação identifica como realidade espiritual perigosa.
A voz constante da Tradição da Igreja
Desde os primeiros séculos, os Padres da Igreja alertaram para o desejo dos demônios de receber a honra que pertence somente a Deus.
Santo Agostinho, na monumental obra A Cidade de Deus, explica que os demônios procuram seduzir os homens para que lhes prestem culto, desviando-os do verdadeiro Deus. Para ele, toda falsa religião que conduz à adoração dos espíritos malignos constitui uma perversão da verdadeira religião.
São Tomás de Aquino, na Suma Teológica (II-II, q. 94), ensina que a superstição e toda forma de culto prestado aos demônios constituem pecados gravíssimos contra a virtude da religião, justamente porque desviam para uma criatura aquilo que pertence exclusivamente ao Criador.
Em tempos mais recentes, o Servo de Deus Padre Gabriele Amorth, exorcista da Diocese de Roma por mais de trinta anos, repetia frequentemente que Satanás trabalha de duas maneiras: levando alguns a negar sua existência e outros a banalizar sua ação. Em ambos os casos, seu objetivo permanece o mesmo: afastar o homem da amizade com Deus.
Como deve reagir um católico?
Diante de uma notícia como essa, a resposta do cristão não deve ser marcada pelo ódio, pela violência ou por ataques às pessoas envolvidas. Nosso combate, recorda São Paulo, “não é contra homens de carne e sangue, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas” (Ef 6,12).
A reação verdadeiramente cristã passa pela reparação. Diante de uma afronta pública ao Senhor, somos chamados a responder com maior amor a Deus. Isso significa intensificar a participação na Santa Missa, dedicar tempo à adoração ao Santíssimo Sacramento, rezar o Santo Rosário, buscar frequentemente o sacramento da Confissão, jejuar e oferecer atos de reparação ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria.
Os santos sempre ensinaram que a melhor resposta às obras do maligno é uma vida de santidade. Quanto mais o pecado tenta ocupar espaço na sociedade, mais os cristãos devem testemunhar a beleza do Evangelho.
Cristo já venceu Satanás
Embora notícias como essa provoquem tristeza, elas jamais devem gerar medo ou desesperança. A vitória pertence a Cristo. Pela sua morte e ressurreição, Nosso Senhor derrotou definitivamente o império do pecado e da morte. Como proclama o Apocalipse: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus e o poder do seu Cristo” (Ap 12,10).
Nenhuma estátua, nenhum monumento e nenhuma homenagem podem alterar essa verdade eterna. Satanás continua sendo uma criatura derrotada, cuja ação é limitada pela soberania divina. Cabe aos cristãos permanecerem firmes na fé, rejeitando toda forma de superstição, ocultismo ou exaltação do maligno, e renovando diariamente sua adesão Àquele diante de quem “todo joelho se dobra, nos céus, na terra e debaixo da terra” (Fl 2,10).
Em tempos em que muitos procuram banalizar ou até romantizar a figura do inimigo de Deus, a missão dos católicos é recordar, com serenidade e coragem, que somente Jesus Cristo é Senhor (Fl 2,11). A Ele pertence toda honra, toda glória e toda adoração, pelos séculos dos séculos. Amém.