Um discurso que não chegou a ser pronunciado, mas cujo conteúdo veio a público, reacendeu uma das discussões mais sensíveis da Igreja contemporânea: a relação entre tradição litúrgica e reforma pós-conciliar. O texto, preparado pelo Cardeal Arthur Roche, prefeito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, reafirma de modo explícito a interpretação mais restritiva do motu proprio Traditionis Custodes, promulgado pelo Papa Francisco em 2021. Segundo Roche, o Missal promulgado por Paulo VI em 1969 deve ser considerado “a única expressão” legítima da liturgia do Rito Romano, enquanto a forma anterior seria apenas uma concessão temporária, destinada a desaparecer gradualmente.
O discurso, que deveria integrar as reflexões do recente consistório extraordinário de cardeais, acabou não sendo apresentado por falta de tempo. Ainda assim, seu teor foi revelado pela jornalista Diane Montagna, levantando fortes reações no meio teológico e litúrgico. Nele, o cardeal inglês sustenta que a liturgia da Igreja sempre passou por reformas e que sua história é marcada por um “desenvolvimento orgânico” contínuo, condicionado por fatores culturais e históricos. Para Roche, sem esse progresso legítimo, a Tradição correria o risco de se transformar em uma “coleção de coisas mortas”, expressão tomada de uma catequese de Bento XVI, proferida em 2006.

A partir dessa leitura, Roche afirma que a liturgia desejada pelo Concílio Vaticano II não apenas estaria em plena sintonia com a Tradição autêntica, mas seria uma de suas expressões mais fiéis no contexto atual da Igreja. Essa visão é reforçada com citações da carta apostólica Desiderio Desideravi, na qual o Papa Francisco defende que não é possível aceitar a validade do Concílio e, ao mesmo tempo, rejeitar as reformas litúrgicas dele decorrentes. Para o cardeal, unidade e comunhão eclesial exigiriam uma única forma ritual para o Rito Romano, aquela que emergiu do Vaticano II.
Essa interpretação, porém, está longe de ser consensual. O liturgista Padre John Zuhlsdorf reagiu duramente, contestando a ideia de que a reforma litúrgica pós-conciliar represente um verdadeiro desenvolvimento orgânico. Recordando análises feitas pelo então cardeal Joseph Ratzinger, Zuhlsdorf afirma que a reforma foi, em muitos aspectos, uma “fabricação”, elaborada por comissões e posteriormente justificada por argumentos históricos e pastorais. Segundo essa crítica, tal processo rompe com a compreensão clássica da tradição litúrgica como algo recebido e transmitido, não criado artificialmente.
Outros comentaristas também questionaram o tom e os pressupostos do documento. O analista católico Gavin Ashenden classificou o texto como mais próximo de propaganda do que de uma análise teológica equilibrada, acusando-o de apresentar uma narrativa histórica seletiva da reforma pós-conciliar. Já Austen Ivereigh, conhecido por sua proximidade com o atual pontificado, afirmou que o próprio Papa Francisco teria solicitado a preparação do documento, com vistas a orientar futuras decisões colegiais sobre a liturgia.
O contexto mais amplo do consistório ajuda a compreender o peso desse debate. Outro discurso relevante foi o do Cardeal Víctor Fernández, que retomou a centralidade da exortação Evangelii Gaudium como texto programático do atual pontificado. Fernández enfatizou a necessidade de uma reforma contínua da Igreja e de uma purificação da pregação, para que o anúncio do amor salvador de Deus não seja sufocado por uma abordagem excessivamente normativa. Na mesma linha de renovação eclesial, o Cardeal Mario Grech defendeu a sinodalidade como instrumento de auxílio ao ministério petrino, sem relativizar a primazia do Papa.
O episódio do discurso não pronunciado de Roche revela, assim, mais do que uma divergência técnica sobre rubricas ou missais. Ele evidencia uma tensão eclesiológica profunda: como articular fidelidade à tradição recebida e obediência às reformas conciliares, sem transformar a liturgia em campo de disputa ideológica. Com um novo consistório previsto para os próximos meses, tudo indica que a questão litúrgica continuará no centro das atenções, desafiando a Igreja a encontrar caminhos de unidade que não sejam impostos apenas por decretos, mas amadurecidos no discernimento teológico e pastoral.


